Miura: O Esportivo Brasileiro que Desafiou a Era das Importações Proibidas
- 12 de jan.
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Em um Brasil onde carros importados eram artigos de luxo proibidos e os sonhos de possuir um esportivo europeu pareciam inalcançáveis, surgiu uma alternativa nacional que conquistou o coração dos entusiastas: o Miura. Fabricado em Porto Alegre (RS) entre 1977 e 1992, este raro esportivo brasileiro combinou design arrojado, tecnologia avançada para a época e exclusividade em um pacote que se tornou objeto de desejo nas décadas de 1970 e 1980.
O Nascimento de um Sonho Gaúcho
A história do Miura começou de forma inusitada. Aldo Besson e Itelmar Gobbi eram sócios na Aldo Auto Capas, empresa que desde 1966 fabricava acessórios para personalizar interiores de automóveis. Em 1974, percebendo o potencial mercado criado pela alta taxação sobre importados, decidiram desenvolver um esportivo nacional com visual europeu e mecânica acessível.
O timing não poderia ser melhor: em 1976, o governo do general Ernesto Geisel proibiu completamente a importação de veículos e produtos considerados "supérfluos". Neste cenário, o Miura se tornaria o primeiro automóvel fabricado em série no Rio Grande do Sul.

Design Italiano, Coração Brasileiro
Para o desenvolvimento da carroceria em fibra de vidro, material com o qual tinham pouca experiência, Besson e Gobbi contrataram o designer Nilo Laschuk, que havia trabalhado na fabricante de ônibus Marcopolo.
O resultado foi um design claramente inspirado nos estúdios italianos do final dos anos 60 e início dos 70. A frente em cunha, o para-brisa inclinado, a traseira alta e os faróis escamoteáveis remetiam a supercarros europeus como Lamborghini Urraco, Alfa Romeo Carabo e Maserati Boomerang, mas com personalidade própria.
Curiosidades Técnicas que Poucos Conhecem
O primeiro Miura utilizava o chassi da Volkswagen Brasília sem modificações de comprimento - diferentemente da maioria dos esportivos nacionais da época que encurtavam a plataforma. Para compensar, os bancos, alavanca de câmbio e freio de mão eram deslocados para trás, enquanto a pedaleira tinha um exclusivo sistema de regulagem de distância para maior conforto do motorista.
Mas o grande destaque técnico estava no bico do carro: os faróis, originários do Fiat 147, eram cobertos por tampinhas que subiam (quando apagados) e desciam (quando acesos), com acionamento automático utilizando o vácuo dos carburadores. Este sistema, por ser problemático, seria posteriormente substituído por um motorzinho de acionamento da reduzida de caminhão e, finalmente, pelo motor elétrico do limpador do Fusca.

Evolução Constante e Tecnologia de Ponta
Uma característica marcante da Besson & Gobbi era a constante evolução de seus modelos. O primeiro Miura, equipado com motor boxer refrigerado a ar de 1.584 cm³ da Brasília, tinha desempenho modesto: aceleração de 0 a 100 km/h em 25 segundos e velocidade máxima de apenas 135 km/h.
Em 1978, surgiu o Miura MTS com o motor do Passat TS (1.588 cm³ refrigerado a água) instalado na traseira, melhorando significativamente o desempenho. Mas foi com o Targa, lançado em 1981, que a marca deu um salto tecnológico, adotando um chassi tubular próprio e tração dianteira.
Os modelos seguintes - Spider, Saga, 787, X8, Saga II, Top Sport e X-11 - impressionavam pela sofisticação e uso de tecnologias raras mesmo para os padrões atuais:
•Computador de bordo com sintetizador de voz que alertava sobre uso do cinto de segurança, necessidade de abastecimento ou problemas no motor
•Volante com regulagem elétrica de altura (em 1977!)
•Freios ABS, pioneiros no Brasil
•TV em preto e branco de 5 polegadas
•Mini geladeira
•Bancos de couro com regulagens elétricas
Produção Limitada e Legado
Ao longo de seus 14 anos de existência, a Miura produziu aproximadamente 9.500 unidades de todos os seus modelos, um número extremamente baixo para os padrões da indústria automobilística. O Miura Sport original teve apenas 1.078 unidades fabricadas em todas as suas versões.
Apesar do preço elevado - em 1977, custava Cr$ 128.500, valor suficiente para comprar um Alfa Romeo 2300 - o Miura conquistou seu espaço no mercado e até foi exportado para países como Arábia Saudita, Nigéria, África do Sul, Alemanha, Colômbia e Portugal. Para Cingapura, foram produzidos carros com volante no lado direito.
A abertura do mercado aos importados nos anos 1990 foi um golpe fatal para a marca, que encerrou suas atividades em 1992. Hoje, os Miura são peças raras e valorizadas entre colecionadores, representando um capítulo fascinante da criatividade e engenhosidade da indústria automobilística brasileira.

Curiosidades Finais
•O nome "Miura" foi inspirado nos ágeis touros espanhóis e também no mítico Lamborghini Miura (1966-1973)
•O modelo mais raro foi o Kabrio, com apenas 14 unidades produzidas
•O Miura 787 (1987) foi o primeiro carro brasileiro com computador de bordo falante
•Apesar do visual esportivo, o Miura era mais um carro de imagem do que de velocidade
•O modelo Saga, lançado em 1984, utilizava o motor 1.8 a álcool do VW Santana, atingindo 175 km/h
Hoje, encontrar um Miura em bom estado de conservação é tarefa para verdadeiros caçadores de raridades automotivas. Mais do que um simples carro, o Miura representa um período em que a criatividade nacional buscava superar as limitações impostas pela economia fechada, criando soluções únicas que, décadas depois, ainda fascinam os amantes de automóveis.




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